Vozes
Marty Cagan: a IA torna o product manager mais essencial
Para Marty Cagan, a IA não apaga o product manager, ela cobra mais dele. Com ferramenta boa na mão de quem não tem julgamento de produto, o risco cresce.
Quando o assunto é IA no trabalho de produto, o coro é conhecido: o product manager vai virar dispensável, porque a IA gera protótipo, escreve requisito e resume pesquisa. Marty Cagan, autor de Inspired e Transformed e uma das vozes mais influentes em gestão de produto das últimas duas décadas, discorda de forma direta. Para ele, a IA torna o papel do PM mais essencial e mais difícil, não menos. Vale entender por quê, porque o argumento se aplica a qualquer função que a IA promete automatizar.
O que Cagan está dizendo
Em uma série de artigos no site da Silicon Valley Product Group, Cagan faz uma distinção que a maioria das discussões pula. Precisamos separar, ele escreve, duas conversas diferentes: incorporar a IA nos produtos que construímos, e mudar a forma como construímos produtos. A segunda é a que interessa aqui, e é a menos compreendida.
O ponto de partida dele é honesto e raro num autor de referência: ele admite que, dois anos depois da explosão da IA generativa, apesar da enxurrada de anúncios e de artigos declarando o fim do mundo como o conhecíamos, na prática mudou menos do que ele esperava. É mais fácil discutir o impacto da IA em engenheiros e designers do que em product managers, ele nota, porque gerar código ou desenhar uma tela é imediatamente tangível, enquanto criar uma solução valiosa e viável não é. E, mesmo para engenheiros e designers, acelerar a produção de código ou de design não se traduz automaticamente em resultado melhor.
Essa é a chave de toda a tese. A parte difícil de produto nunca foi produzir. Foi decidir o que produzir.
Por que gerar mais rápido não resolve o problema certo
Cagan distingue três tipos de gestão de produto: o dono de produto de time de entrega, o product manager de time de feature, e o product manager de time empoderado. A maior parte do que se escreve sobre IA mira os dois primeiros, quem recebe uma lista e a transforma em especificação. O foco de Cagan é o terceiro, o time empoderado, cujo trabalho é descobrir o que é valioso para o cliente e viável para o negócio. E é justamente essa parte, o descobrir, que a IA menos resolve.
Quando gerar código e design fica barato e rápido, o gargalo não some, ele se desloca. Sai da execução e vai para o julgamento. Antes, um time gastava semanas construindo a coisa errada. Agora pode construir a coisa errada em dias. A velocidade sem discernimento não aproxima do resultado, apenas acelera a chegada ao desperdício.
A IA deixou de graça a parte que era cara, produzir, e cobrou caro a parte que sempre foi difícil, decidir o que vale a pena existir.
Isso conecta com algo que Cagan chama de product sense, o julgamento apurado sobre o que funciona. O que mais o anima, ele diz, é a combinação de alguém com julgamento forte e as ferramentas de IA generativa. E o que mais o preocupa é dar exatamente essas ferramentas a pessoas que não têm o fundamento de produto. A mesma alavanca que multiplica o bom julgamento multiplica a ausência dele.
Nossa leitura, para quem opera IA no Brasil
O argumento de Cagan é sobre produto, mas serve de mapa para qualquer função que a IA toca. O padrão se repete: a IA barateia a geração e valoriza o julgamento. Onde o seu trabalho era, no fundo, produzir um artefato, a pressão aumenta. Onde o seu trabalho era decidir bem, com contexto e critério, a IA vira alavanca, não substituta.
Para times de produto colocando IA em produção, isso tem três consequências práticas.
A primeira é parar de medir o time pela quantidade de coisa gerada. Se a IA multiplica a produção, contar entregas vira contar fumaça. O que importa é o resultado que a entrega produziu no cliente, o mesmo deslocamento que defendemos ao falar de medir resultado e não entrega quando a IA gera tudo. Cagan está dizendo a mesma coisa por outro caminho: a geração virou commodity, o resultado não.
A segunda é investir no julgamento antes de investir na ferramenta. Colocar um gerador de solução poderoso na mão de quem não sabe distinguir problema real de pedido de stakeholder é acelerar o erro. Antes de dar a alavanca, vale garantir que a pessoa sabe onde apontá-la. É por isso que hábitos como escrever o resultado que o cliente vai viver antes de construir ficam mais valiosos, não menos, num mundo onde construir ficou trivial.
A terceira é entender que o PM não some, ele muda de peso. A pergunta deixa de ser quanto o time consegue construir e passa a ser se está construindo a coisa certa. Essa é a pergunta que a IA não responde por você, e é a mesma razão pela qual a gestão virou o superpoder da era dos agentes, como argumentou Ethan Mollick. Duas vozes, do produto e da gestão, chegando ao mesmo lugar: a máquina executa, o humano decide o quê e por quê.
Cagan resume o momento com sobriedade rara no debate: dois anos depois, ainda estamos todos descobrindo. Mas, ele diz, agora temos uma noção melhor das perguntas certas a fazer. Talvez seja essa a postura mais útil para quem opera IA em produto hoje: menos ansiedade sobre qual ferramenta adotar, mais rigor sobre qual problema resolver. A ferramenta é a parte fácil. Saber para onde apontá-la continua sendo o trabalho.
Se você quer fortalecer o julgamento de produto do seu time antes de escalar a geração com IA, fala com a gente no WhatsApp.
Fontes
Perguntas frequentes
Qual é a tese de Marty Cagan sobre IA e gestão de produto?
Cagan defende que a IA generativa não enfraquece o papel do product manager, pelo contrário, o torna mais essencial e mais difícil. O raciocínio é que a IA acelera a parte tangível do trabalho, gerar código e design, mas a parte difícil de produto nunca foi produzir, e sim decidir o que produzir: o que é valioso para o cliente e viável para o negócio. Quando gerar fica barato, o valor se concentra em julgar bem, e é aí que o PM competente vira diferencial, não peça descartável.
Por que Cagan se preocupa com a IA nas mãos de times de produto?
Porque a mesma ferramenta que potencializa quem tem julgamento de produto forte, o que ele chama de product sense, também potencializa quem não tem. Uma pessoa sem fundamento de produto, munida de uma ferramenta que gera solução em minutos, produz mais soluções erradas, mais rápido, e com aparência de progresso. O ganho de velocidade sem julgamento não vira resultado, vira desperdício acelerado. Por isso Cagan diz que a fronteira não é a ferramenta, é quem a opera.